INTERLÚDICO I - AS BORBOLETAS
O instinto é químico na hemolinfa larval:
sobe ecdisona, um chamado sem voz,
ordenando o corpo cheio à quieta meta mor,
fase necessária pra dissolver-se e ser outra coisa.
Umas buscam o avesso das folhas,
a face úmida dos platymiscium.
Outras rastreiam a escuridão estável de pedra empilhada,
entram numa sala fechada, segura, sem vento...
Lá fora, a sentença é ecológica:
a chuva incha o casulo até o afogamento,
parasitoides minam a pupa em silêncio,
o fogo carboniza a promessa de crisálida em carvão.
No seguro, a alquimia perfeita tem chance.
A histólise dissolve para reconstrução,
a imaginação celular cria asas dobradas
até a pressão romper o invólucro
— e o mundo novo tremer.
Fototaxismo vira compulsão:
o voo do instinto
encontra a geometria quadrática do seguro.
Mecânicas, as asas batem,
batem contra o hermético.
Insistivamente buscam liberdade
— aparentemente, ideia contradizente à seguridade.
A busca do ar que nasce do instinto
encontra a geometria do vidro.
Batem as asas contra o limite invisível,
perdem as escamas, rasgam as membranas
e caem por exaustão.
— além do limite transparente —
Hermes voa às talarias,
psicopompo,
levando borboletas
mortas consigo.
<< CONTINUA NO CAPÍTULO III - BREVE>>
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