O(eu)NãoObstante

CAPÍTULO II - A CASA

Sasha ficou parada no carro, os dedos ainda grudados ao volante, os olhos fixos na estrutura à frente.

A casa não se mexia, mas parecia tremer e transpirar - ansiosa, talvez.

"Só uma casa", mentiu para si mesma.

Desceu do carro, e o ar gelado grudou em sua pele como uma roupa de látex, asfixiando até mesmo seus poros. A neblina rasteira tocava seus tornozelos, subia pelas pernas, se enfiava entre as coxas e se esvaía.

Seria até provocativo, se não fosse o cheiro de ferrugem e salmoura que vinha da casa e impregnava o ar, misturado a um odor de algo velho, apodrecendo ou apodrecido.

Era um cheio diferente do hotel, mas partia da mesma família de podridão, como se todos os edifícios de Letharxyzsolia compartilhassem a mesma base genética de decadência.

Antes de entrar, temendo encontrar alguma velha louca se esfregando nos móveis, decidiu circundar a casa e olhar pelas janelas. Se afastou do carro, mas manteve a porta aberta, pro caso de precisar correr.

Mas antes de se aproximar, deu uma breve observada.

"Só uma casa... numa noite estranha..." - os pensamentos começavam a se organizar.

Olhou para os lados, não viu nada, apenas a névoa; olhou para trás e viu as lanternas do carro acesas, iluminando nada mais que a névoa.

-Só uma casa estranha, numa noite estranha e uma velha tarada estranha - completou a lista.

Olhou para frente:

A casa era suspensa, erguida a um metro do solo por colunas de pedra maciças, como se temesse a própria terra. No vão escuro sob o assoalho, a neblina se esgueirava entre o emaranhado de mato alto, encanamentos corroídos e ferro-velho; mais abaixo, muito lama.

Pra acessar a varanda à frente da casa havia 5 degraus feitos de concreto, assim como os corrimãos e toda a casa; exceto o telhado feito de telhas de barro vermelho e o piso da varanda feito de madeira, assim como as portas.

Anexada à varanda estava a entrada com uma porta e duas janelas.

As janelas laterais ficavam altas demais pra qualquer pessoa olhar lá dentro, então a solução era entrar pela frente mesmo.

Sasha recuou até o carro, abriu o porta-malas, pegou um molho de chaves na caixa pequena e, decidida, fechou a porta, desligou o carro e andou em direção a casa. Subiu os degraus da varanda e, com mais três passos, parou em frente a porta.

Antes que pudesse se amedrontar, colocou a chave na fechadura e girou.

Abriu a porta.

A porta rangeu para dentro, revelando um véu de escuridão ainda mais opaco que a noite lá fora. Um cheiro pesado de poeira, mofo e abandono golpeou Sasha, fazendo-a recuar instintivamente dois passos, até a beirada da varanda.

Ela esperou.

A respiração presa, os ouvidos atentos, tentando captar qualquer ruído de movimento lá dentro. Nada. Apenas o silêncio absoluto, que agora parecia emanar não só da névoa, mas das próprias paredes da casa.

Os segundos se arrastaram como minutos. Nenhum coaxar, nenhum gemido, nenhum rangido de assoalho. Apenas a sua própria pulsação acelerada batendo nos ouvidos.

Após um tempo que lhe pareceu uma eternidade, a racionalidade começou a forçar seu caminho através do pânico.

"A velha estava no hotel. Aquela era uma casa vazia. Sua casa. O silêncio era um bom sinal. Era o silêncio da ausência, não da ameaça."

Com uma determinação roubada do cansaço e do desespero, ela deu um passo para a frente e cruzou a soleira.

Entrou na casa.

O interior era frio, o ar estagnado e pesado.

Sua mão tateou a parede ao lado da porta, encontrando um interruptor de botão único, antiquado. Ela clicou. Um click seco ecoou na escuridão, mas nenhuma luz se acendeu. Sem energia.

A fraca luminosidade que vinha da porta aberta era suficiente para esboçar o contorno da sala.

Era um espaço amplo. O feixe de luz que cortou a penumbra, revelou um cenário de abandono peculiar.

A casa era bastante velha, mas a arquitetura era sólida, as paredes lisas, a lareira de pedra na extremidade da sala era robusta.

Mas tudo estava coberto por uma crosta de negligência.

Tecidos de aranha pendiam dos cantos do teto como cortinas esfarrapadas. A poeira não era apenas um pó, mas uma película grudenta que cobria todos os móveis – um sofá de couro preto, agora cinzento, uma estante de livros vazia...

Foi então que o feixe luz atingiu em algo no chão, perto do sofá. Marcas. Longos arranhões na poeira, como se algo pesado tivesse sido arrastado da sala para o corredor adjacente.

O coração de Sasha deu um solavanco. Ela paralisou, direcionando o olhar para a abertura escura do corredor.

"Não há ninguém aqui", sussurrou para si mesma, sua voz soando oca e pequena na vastidão da sala. "São só marcas de mudança. Dos antigos moradores."

Mas outra parte dela, a parte que ainda tremia por causa do hotel, sussurrava que as marcas pareciam mais recentes que todo o resto.

Ela forçou-se a respirar fundo. O cheiro era diferente aqui. Menos mofo, mais poeira e um leve odor químico, como de tinta ou solvente, que parecia vir do corredor.

Era hora de explorar. Ela não podia passar a noite paralisada no meio da sala. Com o corpo levemente tremelicando, Sasha começou a se mover em direção ao corredor, cada fibra do seu corpo alerta, preparada para fugir ao primeiro sinal de vida.

A casa, no entanto, permanecia em um silêncio profundo, um silêncio que parecia observá-la, estudá-la, enquanto ela se aventurava mais fundo em suas entranhas.

Sem pensar, movida por um impulso que veio de um lugar além da razão, ela deslizou a mão esquerda para baixo, pressionando a palma contra o zíper da calça jeans.

Através do tecido áspero, seus dedos encontraram um ponto mais febril e pressionaram. Não era um toque de alívio, era um esfregar seco, áspero, quase violento. Uma tentativa desesperada de substituir uma sensação interna inominável por uma externa, controlável, mesmo que o desconforto se misturasse ao prazer.

Ela pressionava os nós dos dedos contra si mesma, os olhos vidrados nas marcas no chão, enquanto dava um pequeno, trêmulo passo à frente.

Os passos eram minúsculos, arrastados. O atrito do jeans contra a pele, amplificado pela pressão de sua mão, criava um ruído áspero no silêncio. Era o único som, além do sangue pulsando em seus ouvidos. Ela se aproximava da boca do corredor escuro.

Foi então.

Um CLIQUE metálico e profundo, vindo das entranhas da casa, ecoou como um tiro no vácuo.

Sasha congelou, os dedos cravados no tecido da calça. Antes que seu cérebro pudesse processar o som, a escuridão foi obliterada.

De repente, todas as luzes se acenderam.

Não foi um acender gradual, mas uma explosão de claridade branca e crua que saiu de cada abajur de teto, de cada arandela na parede. A luz era intensa, clínica, revelando cada detalhe com uma crueza brutal: a poeira dançando no ar, as teias de aranha como rendas sujas, os móveis nus e abandonados.

E, vindo de uma porta à direita que devia ser a cozinha, um homem surgiu.

Ele era alto, magro, mas de musculatura rija, vestindo um macacão de trabalho marrom desgastado e um pouco sujo. Suas mãos, calosas, seguravam uma chave de fenda e um rolo de fita isolante. O rosto retilíneo, marcado pelas linhas dos seus quase cinquenta anos, a barba por fazer na área maxilar e um bigode cheio e caído por cima dos lábios. Ele devia ter uns 45 anos.

Os olhos dele—claros, de um cinza quase prateado—bateram nos de Sasha.

Ela, por sua vez, recuou como se tivesse sido golpeada. A mão voou para longe da entreperna, como se tivesse tocado em brasa. Seu coração parecia querer escapar pela garganta. A imagem que eles formavam era um tableau de horror absurdo: ela, imóvel no centro da sala, com o rosto pálido e manchado de lágrimas secas, a postura ainda meio curvada pelo gesto interrompido; ele, o intruso prático e sólido, o arauto da luz e da normalidade que ela tanto desejara, mas que agora parecia a coisa mais aterrorizante do mundo.

"Oh Void!", ele disse, a voz era áspera, mas não rude. "Você me assustou um pouco. A senhora é... a nova inquilina?" - pausou um pouco para recordar - "A Sasha?"

Sasha tentou falar, mas só saiu um sopro rouco. Ela fez que sim com a cabeça, os olhos ainda arregalados, varrendo o rosto dele em busca de qualquer sinal—uma contração estranha, um brilho de reconhecimento mórbido, qualquer coisa que o ligasse à velha do hotel, àquele lugar.

Ele não parecia notar seu terror específico. Seu olhar era de preocupação genuína, misturada com o susto.

"Desculpe", ele continuou, dando um passo para dentro da sala, mas mantendo distância.

"Eu sou o Donny. Cuido da manutenção das poucas casas que ainda restam aqui. O senhor Charles D., proprietário dessa aqui, avisou que você chegaria hoje, mas com essa neblina... pensei que você teria ido direto para o hotel, esperado amanhecer."

Ele fez uma pausa breve, e Sasha viu um lampejo de algo passar por seus olhos ao mencionar o hotel. "Vim ver o quadro de força. Tava tudo desligado, a ponta dos fios oxidados. Acabei de religar."

Sasha engoliu seco. A voz dele era tão normal. Tão humana. Era o contraste mais chocante possível com os coaxares da velha. Isso a desorientou mais do que a acalmou.

"Eu... eu fui lá", ela conseguiu dizer, a voz um fio. "No hotel."

Donny ficou quieto por um momento. Ele não perguntou "como foi?" ou "achou hospedagem?". Ele apenas olhou para ela.

"Mas achei melhor vir pra cá... conhecer a casa...". - ela respondeu escondendo seus reais motivos.

"É." - ele finalmente disse, a palavra carregada de um significado pesado. "Às vezes... é melhor evitar lugares assim de noite. A senhora fez bem em vir direto pra cá."

Ele deu mais um passo, olhando ao redor da sala iluminada, agora revelada em toda sua solidão empoeirada.

"A casa tá sólida", ele falou, mudando para um tom mais prático, talvez para afastar o fantasma do hotel que pairou entre eles. "Telhado bom, encanamento velho, mas funciona. A eletricidade agora tá okay. O forno e o fogão são a gás."

Ele fez uma pausa e olhou diretamente para ela. "Você tá bem, moça? Parece que viu um fantasma."

Sasha sentiu um calor de vergonha subir por seu pescoço. A lembrança de sua mão entre as pernas, momentos antes, sob a luz crua que agora tudo revelava, queimava como uma marca. Ela cruzou os braços sobre o peito, num gesto defensivo.

"É... é a viagem. E a neblina. E... a velha na recepção." As palavras saíram antes que ela pudesse detê-las.

Donny não pareceu surpreso. Ele apenas assentiu lentamente, grave.

"A Dona Bella", ele disse, o nome soando estranhamente comum para uma criatura tão grotesca. "Ela... cuida do hotel. Há muito tempo. Não ligue pra ela. É melhor não ligar."

"Não ligue!?" - pensou descompassada - "como se fosse uma excentricidade, um mau humor, e não um ritual público de automutilação sexual geriátrica".

Sasha sentiu as pernas amolecerem. A adrenalina começava a recuar, deixando para trás um esgotamento total. Ela olhou para as marcas no chão, agora claramente visíveis sob a luz.

"E... essas marcas?"

Donny seguiu seu olhar direcionado aos arranhões no chão.

"É do baú que eu arrastei pra cozinha, precisava de alguma coisa escorar a escada enquanto eu religava alguns fios. Vem cá, vou te mostrar."

"Não", ela disse, mais firme do que esperava.

A oferta era gentil, mas Sasha sentiu um desejo súbito e avassalador de ficar sozinha. A normalidade dele, por mais bem-vinda que fosse, era um espelho que refletia sua própria instabilidade, seus gestos inexplicáveis. Ela precisava da escuridão costumeira, do silêncio que era só seu, mesmo que fosse ameaçador.

"Quer que eu dê uma olhada no resto da casa com você? Antes de ir?" - ele insistiu parecendo bastante solicito.

"Obrigada. Já ajudou muito. Eu... eu vou me virar."

Donny hesitou por um instante, mas, brevemente, apenas assentiu.

"Tá certo. As chaves que o senhor Charles D. mandou tão todas aí? Boa."

Ele se dirigiu à porta da frente, ainda aberta para a névoa. Na soleira, parou e olhou para trás. Seu perfil, iluminado pela luz interior contra o véu branco lá fora, parecia sombrio.

"A noite em Letharxyzsolia é longa, moça. É bom trancar a porta. E... tente descansar".

E então, com um último aceno, ele mergulhou na neblina e desapareceu.

Sasha ficou parada, ouvindo o som de seus passos se afastando nos paralelepípedos até serem engolidos pelo silêncio. Então, movendo-se como um autômato, ela foi até a porta e a fechou. O click da tranca soou final.

Ela estava sozinha.

A racionalidade e a calmaria já começavam a parecer um sonho, dissipada a opressora sensação da casa silenciosa, do caminho tortuoso até ali, do desejo que ainda latejava entre suas pernas, o eco do horror que ela trouxera consigo do hotel.

De costas contra a porta, escorregou até o chão frio de madeira e enterrou o rosto entre os joelhos. O cansaço era um peso de chumbo em cada osso.

Não demorou muito até que adormeceu, deixando para explorar a casa quando tivesse energia para encarar novas emoções.



<< CONTINUA NO INTERLÚDICO I>>



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