CAPÍTULO I - O VOID
Ela conferiu os itens no porta-malas uma última vez. A mala grande com roupas, as duas mochilas menores com apegos e uma caixa pequena com as poucas coisas que achava necessário para começar de novo.
Não era muito. Poucas posses, poucas raízes, poucas conexões.
Talvez fosse melhor assim. Um recomeço precisava de leveza, ou pelo menos era o que ela dizia a si mesma.
O carro já estava ligado, então ela fechou o porta-malas numa batida firme e deu uma última olhada ao redor.
A casa de onde estava partindo era simples, com paredes desgastadas pelo tempo e uma varanda que havia sido o cenário de poucas lembranças e todos, preferencialmente, esquecíveis.
O dinheiro da casa não era muito, mas o suficiente para recomeçar a nova vida.
Se não fosse pelo carro não precisaria nem passar por ali, era apenas mais um ponto insípido no caminho até o que quer que estivesse à sua frente.
Ao entrar no carro e fechar a porta, conseguiu, enfim, respirar profundamente e vislumbrar os planos futuros.
"Finalmente."
A viagem seria longa, mas a ideia de deixar aquele capítulo pra trás parecia libertadora.
Respirou fundo. Estava deixando para trás a casa dos maus-tratos na infância e, com sorte, as lembranças dos cultos de adoração, as sessões de hipnose e os abusos sofridos na adolescência reclusa. Tudo estava ficando para trás.
A primeira parte do caminho tinha ruas largas, com casas espaçadas entre elas, jardins de vegetais e leguminosas; crianças brincando entre os terrenos e um ou outro cachorro correndo ao lado de bicicletas. Era a vida comum de uma cidade pequena, onde os dias se repetiam e tudo parecia congelado no tempo.
Conforme as casas foram ficando para trás, os terrenos planos deram lugar a colinas e vales cada vez mais profundos.
As árvores começaram a crescer em volume, primeiro em grupos dispersos, depois formando verdadeiras muralhas verdes que ladeavam a estrada.
Os sons da cidade, que antes a acompanhavam como um fundo constante, foram desaparecendo. Não havia mais crianças brincando, nem o latido ocasional de cães, nem o ruído abafado de motores ao longe. Agora, havia apenas o ronco do carro e o som distante do vento varrendo as copas das árvores.
E logo, até o vento calou-se.
Ela acelerou, tentando aproveitar a estrada deserta, buscando desfrutar da liberdade, mas quanto mais dirigia, mais estreita a estrada parecia ficar; os galhos das árvores, agora, um pouco menos folhados, inclinavam-se para o asfalto, formando sombras longas e tortuosas estáticas abaixo do céu começando a nublar.
O ar começou a mudar, transformando-se em algo mais denso e úmido; a temperatura despencou de forma abrupta, uma espessa neblina começou a se formar, aparecendo primeiro em pequenos fios esbranquiçados que flutuavam nas curvas da estrada.
Em poucos minutos, estava por toda parte, envolvendo o carro em um manto translúcido que limitava a visibilidade a apenas alguns metros à frente.
As colinas deram lugar a encostas íngremes, os vales se aprofundaram em abismos cercados por muralhas de pedras, como se o mundo, desse ponto em diante, fosse coberto por uma mortalha.
Ela diminuiu a velocidade, os olhos fixos na estrada, tentando ignorar a sensação crescente de desconforto.
A neblina parecia viva, movendo-se com uma fluidez que lembrava uma teia de aranha emaranhada, como se estivesse observando e reagindo à sua presença, predando.
Um longo caminho se seguiu, de ruas quase planas, sem grandes subidas ou descidas, ainda assim tortuoso.
E então, finalmente, após algumas curvas acentuadas, um longa reta se seguiu e no seu fim, uma ponte.
Suspensa sobre um rio, a estrutura parecia tão velha quanto o tempo; seus pilares de pedra estavam cobertos por musgos, e o ferro enferrujado dos corrimões parecia frágil, torto, quase inútil. As tábuas de madeira que formavam o chão estavam marcadas pelo desgaste, com lacunas escuras entre elas que deixavam vislumbrar o rio logo abaixo.
O rio era escuro, espesso, movendo-se devagar como uma massa de óleo exaustivamente gasto. De vez em quando, uma ondulação quebrava o espelho oleoso, criando círculos perfeitos que se expandiam lentamente. Algo se movia ali.
Havia algo desconfortável na estrutura da ponte, como se ela não fosse feita para durar, apesar da aparência longeva.
As placas no caminho avisando sobre o perigo da travessia e dando boas-vindas à cidade, pendiam para lados diferentes, como se o vento acertasse cada uma por uma direção.
"Bem-vindo à Letharxyzsolia"
Ela respirou fundo, apertou o volante com força e acelerou lentamente. Era só uma ponte.
As rodas giravam e cada metro percorrido parecia mais longo que o anterior, como se a travessia demorasse mais do que deveria. Quando finalmente alcançou o outro lado, sentiu o corpo relaxar de uma maneira que a fez perceber o quanto estava tensa.
Do outro lado da ponte, a estrada finalmente ficou mais larga, o suficiente para passar 4 carros paralelos, mas a neblina ficou ainda mais densa, de tal forma que estando de um lado da rua, não era possível enxergar o outro lado e muito menos o caminho à frente.
O asfalto se tornou um enfileiramento de paralelepípedos, postos de forma irregular; com espaçamentos grandes e pequenos entre as pedras, algumas retas, outras inclinadas; umas mais altas ou extremamente baixas.
Ela avançou lentamente, mas os paralelepípedos tornavam a condução um suplício. Cada irregularidade do terreno fazia o carro sacudir e ranger, os pneus resvalando sobre as pedras desgastadas e desniveladas. Algumas pedras pareciam ter afundado na terra, enquanto outras se projetavam para fora como dentes tortos. O volante vibrava sob suas mãos, e o barulho metálico dos amortecedores reclamando do impacto e tudo soava alto demais no silêncio sufocante.
Quando finalmente parou, a sensação de alívio foi tão breve quanto ilusória.
Desligou o motor e sentiu um arrepio percorrer sua espinha, hesitou por um momento antes de sair do carro.
Não era apenas o frio da noite ou a umidade que vinha com a neblina; era algo mais profundo, mais instintivo. Algo no lugar parecia errado.
Ao abrir a porta, foi recebida por uma quietude opressora, quase surreal. Não havia o menor ruído - nem vento, nem insetos, nem qualquer indício de vida ao redor. Somente nada.
A umidade da neblina se agarrava à sua pele, e o cheiro do ar era denso, uma mistura de vapor de água fervente, ferrugem e algo levemente salgado que não dava pra identificar.
-Isso é loucura - murmurou, quebrando o silêncio, mas sua voz pareceu morrer antes de ecoar, abafada pela vastidão ao redor.
Ela olhou para o caminho adiante, mas a neblina era tão densa que não conseguia enxergar nada além de poucos metros à frente.
Pensou em seguir a pé... olhou novamente o caminho a diante e voltou para o carro.
Girou a chave na ignição e, com o motor rugindo baixo, continuou lentamente. As rodas trêmulas do carro continuavam sua marcha pelos paralelepípedos irregulares, e a sensação de desconforto aumentava a cada metro. A neblina parecia mais densa ali, movendo-se de uma forma que assemelhava-se a algo vivo.
"Que merda de clima! Não faz sentido essa merda!" - esbravejou internamente.
E então, ela viu.
A estrutura surgiu subitamente no fim da estrada, como se tivesse se materializado da própria vontade, do próprio desespero, das rebarbas visíveis do vazio.
Era um hotel.
Ou, pelo menos, deveria ser. A aparência era de uma relíquia de um tempo esquecido, abandonado na beira do mundo. A fachada alta e estreita tinha sido, em algum momento, pintada de um bege claro, mas agora estava desbotada e manchada por musgo e sujeira, como uma casa de bonecas antiga que ninguém ousou brincar por muito tempo.
As janelas eram grandes e retangulares, mas a maioria delas estava coberta por cortinas pesadas e opacas, que bloqueavam qualquer visão do interior. Em algumas, vidros quebrados deixavam lacunas onde a neblina rastejava para dentro, como se a própria estrutura estivesse sendo devorada.
Um letreiro luminoso ao lado da porta principal piscava intermitentemente, emitindo um brilho fraco e irregular, como se estivesse à beira de apagar-se para sempre. O "E" e o "L" no final da palavra "Hotel" piscava mais lentamente que o resto.
A entrada era composta por duas portas de madeira escuras e pesadas, com pequenos batentes de ferro enferrujados e corroídos.
Ela parou o carro a alguns metros de distância, hesitando novamente.
O farol do carro iluminava apenas parte do prédio, parecia que não havia vida ali. Nenhum movimento, nenhuma luz além do letreiro falhando.
Por um longo momento, ela ficou ali, os dedos agarrados ao volante, o coração batendo rápido demais e buscava um pouco de calma pra racionalizar a situação.
"Calma Sasha... é só o mau tempo... a neblina, o frio, o cansaço." - aos poucos foi conseguindo se tranquilizar.
Então ela decidiu.
Se forçou a desligar o motor. O silêncio que se seguiu foi ainda mais sufocante, como se o mundo ao redor tivesse prendido a respiração.
Pegou a chave, hesitou por um momento, e então abriu a porta.
O ar frio da noite a envolveu imediatamente, cortando sua pele e fazendo-a estremecer. Ela fechou a porta atrás de si com um estalo que soou muito alto na quietude, e apertou a chave com força na mão.
Não havia tempo para hesitar. Ela baixou a cabeça e correu para o hotel, quando alcançou a porta, empurrou-a com força.
O rangido foi ensurdecedor.
Ela se encolheu por reflexo, olhando para trás por um momento, como se esperasse que alguém ou algo fosse surgir da neblina em resposta ao barulho.
Nada aconteceu. Apenas a neblina imóvel, densa, espreitando do lado de fora como um véu vivo que se recusava a ser dissipado.
Entrou no hotel e fechou a porta atrás de si, novamente com o rangido.
O lugar tinha cheiro de mofo, madeira apodrecida e urina, um odor que fazia o ar arder nas narinas e apodrecer os pulmões.
O saguão era um ambiente mal iluminado apenas por uma lâmpada amarelada presa a um ventilador antigo que girava lentamente e capenga no teto.
E então ela a viu.
Na recepção do saguão, de frente para a porta de entrada, uma mulher idosa estava curvada, apoiada com as mãos trêmulas na superfície de uma mesa.
A princípio, parecia que a idosa estava com dor. A postura parecia desconfortável, as costas arqueadas de uma forma que sugeria algum tipo de problema físico. Seguido de movimentos repetitivos, indo e voltando com a cintura e de vez em quando soltando gemidos.
A senhora estava esfregando sua buceta na quina da mesa.
Sasha parou de andar, permaneceu estática. Seu primeiro instinto foi afastar os olhos, mas não conseguiu. Piscou repetidas vezes, tentando convencer a si mesma de que não estava vendo o que achava que estava vendo. Talvez fosse apenas sua mente lhe pregando peças, o cansaço distorcendo a realidade. Mas conforme fixava os olhos na cena, não havia dúvida.
A velha usava um vestido longo até o meio das canelas, mais para os tornozelos do que para os joelhos, sem estampas e com cortes retos, sem mangas e um grande decote nos seios, mostrando apenas uma caixa toráxica magrela; o tecido estava desgastado e manchado, tão velho quanto o próprio prédio. A barra do vestido estava levemente levantada, o suficiente para expor suas pernas ossudas e um movimento cada vez mais frenético enquanto ela pressionava o corpo contra a quina da mesa.
Sasha deu um passo hesitante para a frente, ainda duvidando do que estava vendo, mas quando chegou mais perto, o horror finalmente a atingiu.
A mulher estava esfregando com tanta força e por tanto tempo que sua buceta já estava em carne viva, a madeira da mesa encharcada, além de, mofado e bolorento, com manchas de uso repetitivo. Bolhas de sangue misturados com farpas de madeira presas a carne formavam bolhas de pus que estouravam ao serem friccionadas contra a quina do móvel úmido. A velha parecia alheia à dor.
A presença de alguém a observando, parecia ter a estimulado ainda mais, pois fixou os olhos na visita, aumentou a frequência e a força com que esfregava e uma mistura de sons parecia sair de algo que não era humano.
Uma mistura de gemidos de êxtase com coaxares graves de sapos eram soltos com força do seu peito, estufando seu pescoço, contraindo o abdômen e saindo pela garganta como um animal regurgitando um alimento grande demais pra ser engolido.
Sasha ficou imóvel.
Sasha ficou imóvel, absurdada com os sons grotescos que ecoavam pelo saguão. Foi então que a idosa estendeu o pescoço para frente, de um modo tão repentino e inumano, que seus olhos, agora completamente fixos em Sasha, quebraram o feitiço de horror que a mantinha paralisada. Ela recuou instintivamente, tropeçando em seus próprios pés.
A velha então retraiu a cabeça pra dentro do peito, entre os ombros magrelos, encheu o pescoço e a papada com ar e segurou, fazendo estalar os ossos da traqueia.
Também segurou as laterais da mesa, enrijeceu os escassos músculos do abdome e das coxas e aumentou a força com que friccionava a buceta na quina da mesa.
Sem pensar, Sasha se virou e correu.
A porta parecia estar a quilômetros de distância, mas suas mãos alcançaram a maçaneta antes que percebesse. Ela a abriu com força, o rangido estridente das dobradiças misturando-se aos gritos distorcidos da velha, que agora ecoavam ainda mais alto. Os sons eram quase ensurdecedores, carregados de algo que parecia mais animal do que humano.
Ela saiu do hotel em disparada, ignorando a neblina gelada que abraçou seu corpo assim que passou pela porta. Seus pés tropeçaram nos paralelepípedos irregulares, mas ela não parou. Correu como se sua vida dependesse disso, mesmo com o ar rasgando em sua garganta e o coração martelando como uma pedra batendo contra as costelas.
Os gritos e coaxares da velha a seguiram até o lado de fora, crescendo em intensidade, como se ela estivesse alcançando algum clímax grotesco. Cada som parecia pulsar dentro de sua cabeça, fazendo seu estômago revirar.
Quando finalmente chegou ao carro, destravou a porta com mãos trêmulas e quase caiu ao entrar. Fechou a porta com força, girou a chave na ignição e trancou as portas antes mesmo de respirar. O motor rugiu para a vida, mas ela não acelerou.
Ofegante e nauseada, o peito subindo e descendo rapidamente enquanto as mãos tremiam no volante.
-"Que porra foi aquilo?" - ela falou para si mesma, a voz falhando pela garganta seca.
O cheiro da velha, o som, a visão do sangue e da madeira cravada em carne... ela não conseguia afastar nada disso. A cada piscada, era como se visse flashes daquela cena grotesca.
Então, como se um instinto de sobrevivência mais forte tomasse conta, ela girou o volante e pisou no acelerador; o carro sacudiu contra os paralelepípedos enquanto ela se afastava do hotel.
-"O que foi aquilo... o que foi aquilo..." ela repetia, o sussurro tornando-se um mantra desesperado.
O carro sacolejava sobre as pedras irregulares, a suspensão reclamando, mas ela mal ouvia. O que acabara de testemunhar era tão visceral, tão absurdo, que sua mente se recusava a processar.
Sua mente tentou até racionalizar.
"Talvez fosse alguma moradora excêntrica, louca, perdida no tempo."
Mas não conseguia esquecer os sons e a carne ferida e pústula. Seus olhos começaram a arder de cansaço e lágrimas que ela não percebeu que estavam ali.
A estrada parecia interminável, cada curva retorcida era mais confusa do que a anterior. E então, depois do que pareceu uma eternidade, ela viu algo surgir após a neblina.
Primeiro foi a silhueta de árvores e algumas casas, a rua ainda era feita de paralelepípedos irregulares, mas agora estavam um pouco melhor organizados de forma que o carro já não balançava tanto.
Ela desacelerou, manteve os olhos fixos à frente, até que viu a casa.
Ali estava ela, sua nova casa, no fim da rua, como um patriarca solitário numa mesa grande repleta de cadeiras vazias nas laterais.
Aguardando o banquete ser servido para a cear.
<< CONTINUA NO CAPÍTULO II>>
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