O(eu)NãoObstante

A publicidade te pega na corrida

Gosto muito da ideia do Aristóteles de que identificando as quatro causas de um Alguma Coisa, você encontra a explicação daquilo, o porque daquilo ser o que é, as respostas para a existência e natureza de um Alguma Coisa.

Vou tentar apresentar as quatro causas aplicando a nós, seres humanos, sapiens, individuozinhos; e uma caneca, comum.


As quatro causas são:


Aplicando a caneca (preenchi um pouco mais completo pra dar uma noção melhor do que estou falando):

Material Formal Eficiente Final
Porcelana Ela é cônica, oca por dentro com fundo fechado e uma alça em formato de C está grudada na lateral Eu torno ela eficiente por que uso como uma caneca normalmente é usada Tomar bebidas quentes

Aplicando a nós, serhumaninhos:

Material Formal Eficiente Final
Células, átomos, moléculas, neurônios, músculos, sangue, gordura (você entendeu ¬¬") É esse jeitinho que você é organizado; os ossos empilhados, revestidos de gorduras e músculos e tudo que há de bom; o cérebro interligado no sistema nervoso; os dentes enfileirados; esse moldezinho preenchido de carne Existe uma discussão grande aqui, optei por uma explicação possível: Nosso pensamento gera nosso comportamento, e o contrário também. Então, o que nos move é essa rotina infinita que se retroalimenta através de Pensamento e Comportamento Nossa causa eficiente é frequentemente modificada, é uma causa final mutável, indefinida ou definida por um curto período de tempo.

A aplicação das quatro causas pra nossa vida, indivíduos comuns, dentro de uma sociedade, pertencente a grupos, me lembra muito uma frase do Igor Guimarães (o comediante) comentando sobre a morte do pai dele, que eu vou tomar a liberdade de não citar aqui ipsis litteris, mas que segue no sentido de que:

Agora que o corpo físico (material, formal), não se movimenta mais (eficiente), ele virou o que as pessoas lembram dele, as memórias guardadas por quem o conheceu, é o que ele é hoje. (eficiente).

Também me lembra que existe um povo (não me lembro qual) que toma como fato primordial, que as coisas não funcionam, até que elas quebrem e sejam desmontadas e consertadas, a partir de então, sabe-se como funciona, portanto, funciona. Mas não antes de quebrar.

Me emociona pensar que enquanto estamos ativos nossa causa final está sempre se modificando. Quando morremos, a nossa causa eficiente se torna a memória que quem ficou tem de nós. Quando quebramos, parece que forma um entendimento.


Pronto... agora enxuga as lágrimas, se recupera da crise existencial... vamos falar mal do capitalismo:

A forma que a publicidade é estruturada causa uma distorção na percepção da nossa causa eficiente, e portanto, na causa final.

Quando você acorda cedo, sai pra trabalhar, passa o dia ralando e no final do dia, quando você está com fome, sono, cansaço, pegou o celular, aparece uma propaganda de Lanche Feliz, a sua causa final já começa a tender pra um iFood. Talvez, não tão fácil assim.

Mas e se forem propagandas durante o dia inteiro: de manhã, o Café Feliz; no almoço, o Lanche Duplo Feliz; no meio da tarde, nada de comida, mas uma propaganda de que "você merece uma Comida Feliz"; no fim do dia, um cupom pro guerreirinho.

Se você passa tempo o suficiente numa plataforma de vendas dessas, logo a sua percepção do seu entorno muda, as propagandas passam a aparecer em vários lugares (através de algo chamado de pixel de remarketing) e cria-se a ilusão de que todo mundo está comendo o Lanche Feliz, só você que está fora disso.

Em resumo, através de Facebook, Instagram, Spotify, YouTube, TikTok, Twitter e onde mais tiver essa lógica de feed orientada a algoritmo e busca por performance comercial, transformaram sua causa final no Lanche Feliz e a sua causa eficiente é o McDonald's, seu otário.